quarta-feira, 15 de abril de 2026

 Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim. 

(Álvaro de Campos).

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado — isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido.

Não creio que a história seja mais, no seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos.

O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.

Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono. E eu faço festas, com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.

Um hálito de música ou de sonho — qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar. (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 25 de março de 2026

Sento-me na cadeira do meu quarto, de frente à janela a noite infinita e o momento que sempre me aguarda. Sento-me nessa cadeira velha do meu quarto, bêbado e consciente, condenado a prisão dos meus pensamentos que são reais por dentro mas que só se mostram reais nesse momento e o que é real além do que sinto? Nada é real além dessa cadeira, dessa janela, dessa noite. Em que hei de pensar?

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

  Tenho pensado sobre o papel da arte e os diversos meios que temos de expressar sentimentos. O ato de escrever ou compor uma música, por exemplo, é uma forma de manifestação dos sentidos que não encontram significação pela conversação cotidiana.Nós não criamos o pensamento, ele é que nos visita e se externaliza de alguma maneira. É nessa possibilidade de externalização dos sentimentos atrelado a arte que tento descobrir alguma lógica. Esse meio de comunicação que o ser humano encontrou para ir além das palavras, que transgride as barrerias linguísticas e que pode ter significado semelhante tanto para mim como para um chinês que vive do outro lado do mudo e possui uma cultura completamente diferente da minha.

  A música ou qualquer outro tipo de arte é antes de tudo uma força da natureza na sua forma mais bruta. Assim como uma árvore cresce em terreno favorável e desenvolve toda sua máxima potencialidade, a arte é a expressão da natureza em si mesma, é o encontro direto do criador com a criatura, seja ele nomeado de deus, universo ou qualquer outra coisa.

  É a partir desse momento que estamos aptos a ter contato com essa inteligência já não estremada e que por isso permite uma outra percepção de coisas que até então superficiais. Ou seja, o processo de aprender a tocar algum instrumento, não é apenas sobre executar os movimentos corretos ou saber ler tablaturas, mas está se aprendendo nesse momento uma nova linguagem que permite comunicações que antes eram limitadas. Gradualmente compreende-se melhor essa nova forma de expressão e isso se reflete no sentimento que é passado pelo instrumento.

  Eu uso muito o exemplo da música pelo fato de que é o que está mais próximo de mim. Aprendi a tocar violão alguns anos atrás. Nunca fui bom e confesso que tive dificuldades no processo até o ponto de desistir e me contentar apenas com o básico. Porém confesso também que quando comecei a conseguir fazer esse básico me senti muito bem pois a música passou a ter um outro significado para mim. Comecei a escutar as músicas de um outro modo, identificando os sons, os tempos, as batidas. Cada instrumento passou a ter um significado e uma linguagem própria onde antes só quem se comunicava era a letra. E olhe que eu não me aprofundei nisso, nunca estudei música e o pouco que sei foi por curiosidade minha.

  Escrito a partir de rápidas reflexões noturnas eu concluo que um dos papéis da arte é esse, suprir a carência da expressão linguística para os sentimentos tão complexos que nós temos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

  A primeira vez que tive contato com Celine foi coisa de cinco anos atrás se mais uma vez não me decepciona a falha memória. Eu cursava história em uma universidade e andava mais perdido que uma formiga faminta em um piquenique.

  Contando os pormenores eu posso dizer que era algum dia útil da semana e eu me preparava para ir pegar um ônibus rumo a casa de uma garota com quem me relacionei na época. Relação conturbada por sinal, mas tentarei me ater a apenas um assunto. É sempre assim, começo falando de uma coisa e então já penso em outra, quando criança o médico disse que isso era por causa de um déficit de atenção seríssimo. Viu? Já falei sobre várias coisas. O médico nunca esteve tão certo. Vamos tentar recomeçar.

  Nessa época eu lia bastante. Passava horas nos alfarrábios da cidade pechinchando livros, garimpando estantes empoeiradas e esquecidas. Não saia de casa sem um livro debaixo do braço, era mais fácil esquecer de vestir a camisa que atravessar o portão sem algo para ler. Lia andando, no ônibus, na fila, comendo e também sonhava com as minha frases preferidas que fazia questão de decorar. Os que conviviam comigo sofriam com meus delírios literários. se me visitavam em casa eram obrigados a escutar por horas o que eu tinha a dizer sobre vários autores, eu declamava poesias e se estivesse bêbado então era impossível me aguentar.

  O principal resultado desse contínuo enlevo literário foi me inflamar a novas revoltas, me sentia louco, excêntrico, começava a me afastar dos mais próximos e a tratá-los com desprezo, realmente beirando o desespero. Em certo ponto fiquei definitivamente triste e infeliz, precisava mudar. Achava que com uma mudança de ares esse sentimento que me ensandecia poderia ser correspondido. De uma formiga perdida em um piquenique me tornei uma, das bem pequeninas, perdida no mundo, larguei tudo e fui embora, mas não por muito tempo. As primeiras fuga nunca dão certo.

  Tudo isso para contar que ao ler Viagem ao fim da noite de Celiné eu senti a mesma excitação e desespero e loucura daquele tempo em que decidi abandonar tudo e ir viver ao livre, me sustentar com minhas próprias mãos e descobrir o que o mundo e as pessoas me reservavam.

  E é exatamente isso, cada aventura de Bardamu era uma pérola achada, eu sofregava de um parágrafo para o outro, era como um intenso e sufocante mergulho. Todas as sensações estavam ali, fortes, pulsantes, cruas. O meu próprio miserável e egoísta mundo sendo recriado e tomando novas formas por todos os lados. Seu modo de escrever então é fascinante e apesar das traduções perderem um pouco do real sentido, o português e o francês são irmãos gêmeos por terem como origem o latim. Um dia estudarei francês para ler a obra original.

  Hoje eu terminei de lê-lo pela terceira ou quarta vez e a sensação é a sempre a mesma. Se um dia eu fingi intensamente ser Arturo Bandini, a partir dessa época tive mais um herói que de algum modo salvou minha vida, para o bem ou para o mau.

sábado, 1 de outubro de 2016

Sou bastante fiel na minha infidelidade, e, embora mudado, continuo igual, e a minha única ânsia é: Como posso ser útil ao mundo, será que não posso servir a alguma finalidade e ter alguma serventia, como fazer para aprender mais e estudar profundamente certos assuntos? Você vê, é isso o que me preocupa constantemente, e então me sinto aprisionado pela pobreza, excluído da participação em determinados trabalhos e certas coisas necessárias se encontram fora do meu alcance. Eis aí um motivo para não escapar à melancolia e ai se sente um vazio onde deveria haver amizade e fortes e sérias afeições, e um terrível desânimo rói a nossa própria energia moral, e o destino parece opor uma barreira aos instintos da afeição, e uma inundação de desgosto se levanta para nos sufocar. E exclama-se: "Até quando, meu Deus!"

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Hoje não quero questões!
Estou tão fresco, tão ligeiro;
A alegria e as canções
Inventei-as eu primeiro.
Por isso bebo! Pra baixo!
Tocai lá! Estou como um cacho!
Tu la detrás, vem aqui!
Toca lá! Foi bem assim.

Minha mulher dava berros,
Até a roupa me rasgou,
Lançou-me em rosto os meus erros,
Estafermo me chamou.
Mas eu bebo, bebo bem;
Tocai lá, bebei também!
Estafermos, é tocar!
Se tinir, logo emborcar.

Não digais que ando perdido!
Estou aqui porque me apraz;
Se não fiar o marido,
Fia a mulher ou o rapaz.
Beba eu sempre sem parar!
Sus, amigos, é tocar!
Uns aos outros, sem ter fim!
Desta vez foi bem assim.

O que me alegra e dá gosto
Posso sempre suceder:
Deixai-me aqui neste posto!
Já me não posso em pé ter.

Fausto.