sexta-feira, 24 de abril de 2026

Sento, olho pros lados, pego meu caderno e começo a escrever isso aqui. Ao meu redor, roupas sujas, farrapos, latas vazias — e meu inseparável companheiro de viagem dorme como um anjo, lindo, sem se importar com o sol, com a barraca, com as latas ou com a vida.

O caderno já está um pouco gasto. São meses de viagem, algumas anotações inúteis, reflexões em desacordo com a vida. Eu sempre estive em desacordo com a vida.

Talvez eu devesse dormir um pouco mais, como ele, guardar esse caderno e descansar. Não me importar com essas réstias de sol que me trazem pra vida. A vida de verdade, não a vida que eu imagino.

Imaginar, sim, é arte. O resto é vida.

Nunca fui tão livre — livre da vida. E nunca fui tão preso a mim mesmo. Mas não preso à vida; preso a mim, porque imagino, sonho — e sonhar é arte.

Continuo essa viagem para continuar sonhando.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

 Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim. 

(Álvaro de Campos).

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado — isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido.

Não creio que a história seja mais, no seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos.

O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.

Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono. E eu faço festas, com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.

Um hálito de música ou de sonho — qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar. (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 25 de março de 2026

Sento-me na cadeira do meu quarto, de frente à janela a noite infinita e o momento que sempre me aguarda. Sento-me nessa cadeira velha do meu quarto, bêbado e consciente, condenado a prisão dos meus pensamentos que são reais por dentro mas que só se mostram reais nesse momento e o que é real além do que sinto? Nada é real além dessa cadeira, dessa janela, dessa noite. Em que hei de pensar?