[Parte II]
Ana morava nos fundos de uma casa grande na região
litorânea da cidade. A casa pertencia a senhora Tera, não sei se era o nome ou
apelido. Lembro vagamente que Ana tinha comentado sobre as crianças da vizinhança terem muito medo da senhora Tera. Vai ver a coitada era apenas uma viúva pensionista que tirava sustento alugando
quartinhos baratos nos fundos da casa.
Quando chegamos, Ana me alertou para não fazer
barulho. Isso não seria fácil, eu estava bêbado feito um gambá e era difícil
cadenciar os passos.
- Olha, vamos atravessar esse corredor
silenciosamente. Meu quarto fica lá no final. Entendido?
-Vamos dormir aqui mesmo! Apontei para o jardim e
fui me guiando entre as tulipas e outras flores coloridas.
Ana, que também não estava no seu melhor estado de
sobriedade, sussurrou quase que sem voz.
-Ei, eeeei, por aí não. Você vai foder com tudo!
Dona Tera tem um mau humor terrível e vai nos expulsar daqui!
Arranquei uma flor, a mais bonita do jardim e
imaginei qual é a sensação de uma flor ao ser arrancada. Ali, na minha mão,
preservando a beleza mesmo sem vida. Voltei para o caminho do corredor e
começamos a andar juntos, eu logo atrás de Ana, tentando acertar os passos e
ela fazendo sinais e gestos, mostrando onde eu não deveria pisar.
-Shhh! Cuidado com as garrafas.
Me concentrei mais um pouco e conseguimos chegar ao
fim do corredor e até a porta do seu quarto. Enquanto procurava a chave do
portão na bolsa que carregava, percebi que ela realmente tinha pernas torneadas,
o salto evidenciava a musculatura, excitantemente. Aproximei-me por trás,
respirando propositalmente na sua nuca. Percebi que se arrepiava e não
conseguia acertar a fechadura. A virei com um pouco de força excessiva, quase
batemos na testa um do outro. Ela riu e me beijou.
Uma longa série de casos amorosos complicados
parecem ter acabado com ela. Agora, lá estava eu, igualmente arruinado,
beijando-a e tentando tirar meio desesperadamente aquelas roupas molhadas que
parecia uma segunda pele, de tão grudada no corpo. Parecia que os dois não
transavam há séculos. O sexo tem dessas coisas, é o que mais nos aproxima dos
outros animais. Viramos bichos selvagens, pau selvagem, boceta feroz.
Ana pediu um minuto, respirou fundo, colocou a
franja para trás da orelha esquerda e conseguiu abrir a porta. Entrei e
sentei-me a mesa. Apesar de pequeno, o kit net era limpo e com poucos móveis. O
assoalho era todo de madeira e parecia ranger com os meus passos. Eu andava e
mais parecia que estava cagado, cada passo e um gemido.
Sentei-me a mesa enquanto ela abria a geladeira atrás
de comida e vinho. Esperei por uns dez minutos e pensei que Ana tivesse morrido
na cozinha. Sabe como é, nunca nada disso aconteceu comigo, digo, nada de tão
pavoroso a ponto de me testar. O que eu faria se ela realmente estivesse morta? Um homem precisa ser testado constantemente
Assim que finalizei o pensamento, o chão começou a
ranger novamente e lá vinha Ana, destruindo toda a
minha tese de morte, pois
trazia a vida em seu semblante.
-Afaste-se um pouco. Deixe-me sentar com você.
Ana afastou minha cadeira da mesa e sentou-se no meu
colo, já despida, apenas com as roupas de baixo e uma garrafa de vinho nas
mãos. Seu corpo ainda dava para o gasto. Não parecia ser o tipo de mulher que
se cuidava ou se importava com a beleza, mas talvez tivesse sido abençoada por algum
anjo pervertido que lhe deu belas curvas e uma tonalidade branca da pele,
impecável.
Enquanto bebíamos e conversávamos a chuva metralhava
o telhado de zinco, sem piedade. Parecia o dilúvio. Pensei em Noé.
Por fim trepamos ali mesmo, em cima da mesa de mármore
fria que ocupava o centro da sala vazia.
Acordamos levemente ressacados. Os passarinhos
cantavam bastante, agradecendo o sol por ter espantado tanta chuva. Olhei para
o lado da cama e não a vi. Apenas nossas roupas molhadas no chão e a TV ligada,
porém muda.
- Um ou dois? Um ou dois, baby?
Senti o cheiro de ovo frito vindo pela porta.
-Apenas um meu bem. E quando vir traga a carteira de
cigarros.
Eu não sentia vontade de fazer nada, pensar em nada.
Apenas existir. Sentia-me muito bem.
O chão começou a ranger novamente. Era Ana me
trazendo algumas coisas. Pensei em como deve ser esquisito morar em uma casa de
madeira, parece que estamos sendo sempre perseguidos com tanta rangedeira.
Ela trouxe uma bandeja com ovos fritos e algumas
torradas murchas, colocou-a entre nós dois.
-Desculpe-me, as panquecas já estavam verdes e só
tenho isso por aqui.
-Onde você esteve esse tempo todo, baby?
-Aqui! Sempre estive aqui... Agora coma antes que
esfrie.
- Como é o nome da mulher que te deixou?
-Como sabe disso?
- Sua expressão é de alguém desiludido, deixado.
- Pareço tão estúpido assim? Falei rindo pelo canto
da boca.
- Sim. Todos nós somos.
-Enfim, não faz diferença. Não importa...
- Então ela se mandou, sem mais nem menos?
-Sim, não sei pra onde.
- Sente falta dela, não é?
-Acho que sim, às vezes sinto um nó na garganta, dá
vontade de chorar. Creio que não vou me recuperar dessa.
Eu nunca tinha sido tão sincero, me sentia ridículo,
fraco e sentimental.
-Vai sim, vamos dar um jeito de superá-la. Isso
acontece com todos.
-Então, sabes como me sinto?
-Claro. Ou você acha que é o único?
-A cadela nunca ligou pra mim. Ela dava mole pra
qualquer cara que se mostrasse um pouco interessante.
Desses que têm um cabelo
legal, tocam algum instrumento, entendem de cultura e sabem fazer malabarismo.
Não sou bom em nada disso.
Ana foi pra trás de mim e começou a massagear minhas
costas.
-Bobagem, ela liga sim.
Decidi que era melhor estar ali com Ana, do que
sozinho no meu apartamento.
Acabamos de comer, esperei ela acender o cigarro, me
inclinei sobre a bandeja e a agradeci com um beijo.
-Você é um bom homem.
-Você me faz sentir bem. Obrigado.
Fiquei deitado na cama por mais dez minutos, apenas
admirando Ana debruçada na janela, lindamente de calcinha verde, a baforar fumaça para fora.
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